Não tenho jeito para homenagens, nem nos dias exactos nem nos locais, nem nas horas. E este texto, se podemos encaixá-lo nos parâmetros, parece tardio e fora de tempo, mas prefiro-o agora para que a memória não se encurte, porque as verdadeiras saudades vêm dias depois e continuam anos seguídos.
O Senhor Carvalho, para quem não o conheceu pessoalmente, licenciado em Filosofia - mas ele que me permita tratar-lhe por senhor, porque doutores há muitos, engenheiros às carradas, e de senhor ele é raro exemplo por estas bandas - nasceu em 1950, ano de muita boa gente parida por cá, no pós-Guerra, em plena ditadura. Mas não foi esta a doença que o corrompeu porque na aurora da democracia abraçou-lhe a iluminura como um girassol e seguiu-a mesmo por trás das nuvens.
Podia dizer que não lhe conheço a vida por dias nem anos, como friso cronológico, como nos facilitavam alguns nas aulas de História. Conheço-o pelo que dizia, pelo que fazia, pelo que fez sempre, pela sua terra e pela sua gente. No entusiasmo: pacífico e sereno como uma aldeia de pedra na montanha e, como ela, parte em mão humana da sua beleza imensa.
Foi presidente de Junta de Arco de Baúlhe no ano em que nasci (1983), mas de autarca apaixonado manteve sempre, mesmo em lugares de assembleia, a energia bem encaminhada e atirada para a frente. Homem de progresso aliás, amante das letras, das artes e das liberdades humanas, foi correspondente local de vários jornais nacionais, fundou jornais por cá, dirigiu outros, escrevia como ninguém e nunca deixou adormecer a sua comunidade no embasbacamento. Vem dele o primeiro puxão de orelhas à minha escrita, em 2002, salvo o erro, quando escrevi um artigo para o Ecos de Basto, depois de uma viagem à Hungria. Dizia ele que eu tinha uma escrita difícil de ler, confusa, que os tempos verbais não eram congruentes, que falava no passado e presente na mesma frase, e que haveria muita gente que não ia compreender-me. Palavras sábias e de verdade, e parece que ainda não aprendi com elas...
O Senhor Carvalho, no que de físico podíamos esperar dele, desapareceu em surdina no dia 8 de Dezembro do ano passado, no murmúrio dos dias, como sempre fez, para não parecer demasiado barulhento. Foi-se, respeitador com os nossos próprios sofreres e viveres, com uma pose formal, muito sua, de cangalheiro, como se o funeral fosse o nosso.
De qualquer forma, não fica findado o que posso dizer dele. Volto a escrever quando me apetecer passar do pensamento aos dedos, porque o senhor Carvalho vive neste formigueiro que resta a quem o conheceu. E não há datas por si que obriguem a lembrar pessoas, porque estas, quando Grandes, obrigam a pensar nelas em qualquer data...
E a melhor honra que se pode dar a um homem de tamanho interesse pela causa pública e pela dinâmica da sociedade civil é fazer da sua biblioteca um edifício vivo, pleno de actividade e local de convergência e partilha de conhecimento. Gostava, como ele gostaria certamente, de ter por lá espaços de tertúlia, de discussão e foz de gente interessa na cidadania e nas novas formas da imprensa e da expressão livre. Uma biblioteca do tamanho da vida do Senhor Carvalho...