terça-feira, 24 de janeiro de 2012

meu querido editorial: toma o comprimido

Maria, o nome é comum e podia ser o de todas as mulheres deste país. Entra no consultório com a cara carregada como o saco que traz, cheio de caixas de comprimidos de todas as cores e feitios, com ou sem risquinhos ao meio. Já correu mais de quantas qualidades de médico: “o de família”, “dos ossos”, “dos nervos”. Médicos também eles escolhidos da prateleira.
Mas voltemos a Maria, que aparenta 60 ou 70, talvez exagere, rodará os 40 e poucos. A vida, mais que a idade, têm-na erodido todos os dias. Não tem tempo nem dinheiro para arranjar o cabelo, que fará os dentes. Desempregada, doméstica para mitigar. O filho formado “em casa”. Vá lá, não anda na droga, passa o dia na internet. O marido, ora desempregado, ora com a casa e o emprego tremidos, não a procura, nem ela se deixa procurar. Na lida normal tem sobre os ombros uma cabeça mais pesada que o corpo. Arrasta as pernas agrilhoadas e os ouvidos parecem rebentar com o mais suave dos ruídos.
Maria sabe porque não consegue dormir e porque custa a levantar-se da cama. Toda a gente sabe. Até o Governo sabe. Ainda assim, Maria assiste à roda viva dos cara de pau, com fartos bolsos, a pedir sacrifícios aos outros. Que emigrem ou que se desimerdem. Entre reagir ou deambular o corpo dormente, a Maria vai com as outras, toma o comprimido. Intercala o cor de rosa, de risco ao meio, com o laranja redondinho. (o marido nem vontade tem de tomar um azul). Prefere a resignação. Um dia a coisa passa, ou ela passa-se.
editorial de 23 de janeiro de 2012

2 comentários:

  1. Anónimo12:44

    Mria?? Mulheres e Homens também!!
    Neste e agora noutros Paises também!!

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  2. Anónimo09:20

    Vejo e sinto o mesmo tantas e repetidas vezes quando entram pelo meu escritório...

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