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segunda-feira, 7 de maio de 2012

poetas inesperados

HUMANISMO  
Não interessa a minha cor, irmãos,
Somos do mesmo mundo, e para o mundo 
Não somos nada sem o amor profundo 
Dum sincero desejo a dar as mãos. 
Vinde falar comigo, amigos meus, 
Venha do mundo inteiro a humana gente, 
Vinde e dizei-me se essa cor diferente 
Não ama o sol, a vida, ou não tem Deus.  
Se não viveis a lei da humanidade, 
Uma lei de bondade e de beleza, 
A lei da origem humana - a natureza.  
E nós não temos culpa, na verdade, 
Porque da vida, a própria cor da gente, 
Tudo se gera, em trevas, inocente

 do opúsculo "Sonetos" de Cap. Elísio Guilherme de Azevedo

terça-feira, 20 de setembro de 2011

regressar para quê?

Quem regressa a Portugal regressa ao medo
de falar sem alçapões de protecção
conventual, ao respeitinho pelos títulos
de borra, à timidez de protestar nas oficinas,
nos empregos, nos polés, nos hospitais.
Volta ao gozo bichaneiro da franqueza
pelas costas, ao bitate regougado
pela incúria, ao leve gás do palavrão
desopilante, pusilânime, vendado,
ao complacente desamor da liberdade.
Regressar a Portugal é regressar
ao desapego por direitos e deveres,
à indiferença pela história colectiva,
pelo que quer que sobrepuje o cá-se-vai
dum comodismo sem coragem nem prazer.
É regressar a horizontes de betão
e eucalipto, a frustrados atoleiros
de automóveis à deriva, ao fanico
de salários sobrevivos, mordaçantes,
ao cajado da lisonja e da preguiça.
Quem regressa a Portugal, regressa ao tempo,
sobretudo, da infância, que o lugar
já foi levado (não me canso de o dizer,
nem me conformo) pelo tufão da mais-valia
predial. Mas se o tempo da infância
cabe inteiro na memória, quem regressa
a Portugal, regressa a quê e para quê?

josé miguel silva, eucaliptal

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

o filme certo na altura certa



Estreia hoje no CCB, mas o falado filme de João Botelho, inspirado no "Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa, há-de passar em digressão fora do circuito comercial normal, em vários cine-teatros do país. Mais a norte, de 7 a 9 de Outubro, no Teatro São João do Porto, e depois Braga, Famalicão e Guimarães.

domingo, 14 de março de 2010

Dia T


Ontem, penduramos as razões e os lamentos na velha ponte de Amarante. e o rio Tâmega juntou-se enrolando as águas nos pilares em síncrono com os canoistas . Eles, que como nós, também o preferem assim, livre e temperamental. Agradeceu-nos as palavras, silencioso, e apenas se fez ouvir em protesto mais abaixo, quando se precipitou na largura do Torrão que não é ele.

Éramos 300 a fazer voz no mesmo timbre que se ouviu mais tarde, nessa noite, na apresentação do livro de Luís Jales de Oliveira. A sessão teve a tonalidade mista de homenagem e vigília. Houve alturas que soou a um requiem revoltado com esta ligeireza de afundar memórias e afectos entre os homens e a natureza, a troco de um progresso anacrónico. Os mondinenses e outros que se lhes ajuntaram, alguns homens do poder, sentiram-se de alguma forma.

sábado, 21 de março de 2009

[poesia da casa] "Dias de Fim, Noites de que me esqueço"


I

Onde estamos tu e eu?
Onde? Em que lugar nos quedamos perdidos
Intransigentes
Mal entendidos?
Nem sei que sentes
Nem teus braços estendidos
Nem sombras nem gentes
Te explicam
Me esclarecem a mim
Este rodopiar de desencontros
Em dias de fim.

Separados?
Nunca…
Talvez só um pouco
Ou nada ou sempre…
Nunca mais!
Talvez amanhã
Talvez hoje.
Deslizes de amor diferente
Que tanto me abraça como me foge.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

"Tâmega"


Pena-me a hora desinspirada

Em que resolvi cantar-te
E fui destruindo a arte
Em cada palavra pensada.
Artéria principal em ribeiros metastizada
Sinónimo de fronteira forçada
A quatro povos irmãos
Com mesmo cansaço nas mãos
Os mesmos rostos e medos
O mesmo manjar sobre a mesa
A mesma alegria e tristeza
Por te fazer chegar aos vinhedos


segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Compota de Letras


O Blogue Amor & Amoras, é um projecto bloguístico de vários amantes das palavras em Cabeceiras de Basto e não só, se calhar no Mundo. É um lugar de poesia e exercício de escrita. Os autores são frutos silvestres unidos no húmus, pelo efeito antioxidante da escrita livre.