domingo, 22 de Junho de 2014

a autofagia

As recentes histórias vindas do interior do Partido Socialista não auguram nada de bom para qualquer um dos candidatos a uma disputa que ainda está por confirmar-se. O episódio em Braga é a demonstração do tipo de gente e espírito que se "afeudou" dentro do partido, um punhado de caciques, apparatchicks e fieis escudeiros,  vazios de ideias e de ideologia, que já nem disfarçam o quanto espernejam por um lugar no poder. Exemplo maior, o enérgico esforço do antigo presidente de câmara de Cabeceiras, antes tão amigo de Seguro, agora arredado no seu sectarismo para um plano a que não estava habituado, que depois de dividir a secção local com as mesmas "manobras", trata de escachar em duas a federação de Braga. Entre a blindagem estatutária e o golpe de estado, está desde já minado o candidato a primeiro-ministro do PS que sair deste exercício de autofagia. Até porque não estou a ver, num calendário tão apertado, o entusiasmo dos apoiantes de um qualquer derrotado a erguer as bandeiras de um qualquer vencedor. Muito menos depois da tarde de hoje ali para os lados do Porto, onde Costa provou da atiçada populaça socialista, mesmo sob proteção dos guarda-costas  Pizarro, o cesariano dos Açores e, claro está, o sempre-em-bicos-de-pé de Cabeceiras. Quem se ri desta autólise socialista, são os do Governo cuja novela do "irrevogável", em comparação, foi uma daquelas zanguinhas de casal que acabam melhor na cama. Agora, a  única emenda possível para este PS é uma terceira via, um terceiro candidato. O pior é que as únicas hipóteses ou estão podres ou demasiado verdes.

terça-feira, 3 de Junho de 2014

Silêncio!


O silêncio situa-se em dois pólos opostos. Serve para que possamos falar ou para que se impeça que se fale, serve para libertar ou para oprimir, serve para que outros sons se oiçam ou para que só um impere, o do próprio silêncio. O escritor moçambicano Mia Couto escreveu em tempos um livro com o título “Venenos de Deus, remédios do Diabo.” Nos dias de hoje, o silêncio parece-me que é usado precisamente nesse sentido, como um veneno divino, porque aceite sem questionar, e um remédio do Diabo, acreditando que nos cura quando alastra a doença.

É da crise da democracia de que falo. Ou melhor dizendo, das democracias, um pouco por toda a Europa, para restringir territorialmente a esse continente a análise. Das últimas eleições europeias nada de novo, isto é, nada que já não fosse expectável. No entanto, a subida das forças politicas assentes ideologicamente na extrema-direita é algo que a todos nos deverá preocupar e que perante essa preocupação, o silêncio nunca poderá ser a melhor resposta. Este não é tempo de reflexões profundas mas de ações concretas. O silêncio demonstrará tão só que desacreditando totalmente na Europa deixaremos que os partidos do poder se reúnam cada vez mais ao centro enquanto a Europa se desmantela ao som do populismo fácil da extrema-direita que mobiliza o descontentamento de quem deixou de acreditar na social-democracia porque esta casou com o neoliberalismo.
Concretamente, temos um claro relato de Lúcio Machado, empresário mondinense que o New York Times foi descobrir. Este homem é um entre milhões que sofre as consequências do jogo de casino em que a banca se tornou, onde a desregulação financeira asfixia a economia real, aquela que produz realmente mas que a finança especulativa insiste em destruir. Um destruição levada a cabo pelas suas taxas de juro calculadas com base no mesmo universo do desconhecido com que as agências de rating emitem os seus resultados que influenciam estrondosamente e absurdamente o financiamento dos países só porque os mercados “acordaram de mau humor”.

Aproximando a lupa a uma escala mais reduzida, os episódios circenses com que as reuniões de Assembleia em Cabeceiras tem sido levadas pelo seu presidente e pela bancada socialista deveriam envergonhar qualquer pessoa que se diga democrata. A negação repetida do uso da palavra, princípio básico da democracia, escudando-se em leituras obscuras do regimento é prova de que quem impõe o silêncio teme ouvir a palavra, sabendo que o que ouvirá é a verdade. Perante tudo isto, a paródia aumenta de tom quando o desrespeito pelo órgão democrático que é a Assembleia Municipal é protagonizado por aqueles que de forma lírica com voz pouco musical insistem em proclamar os valores de Abril enquanto se usassem o silêncio era bem mais sensatos.


Por último, foi com enorme prazer que estive à conversa com José Pereira que completou recentemente 101 anos. Mesmo o seu século de existência não lhe faz tremer a voz. O silêncio que insiste em fazer quebrar deveria ser inspiração para muitos jovens que lentamente deixam que o silêncio os adormeça e acabam por se abster da vida quando o presente precisa tanto que a força da palavra lhes comande o corpo e a mente.

in Editorial Jornal O Basto, Maio 2014

terça-feira, 27 de Maio de 2014

Noite das facas longas, porque ganhar é relativo


O semi-eterno candidato à liderança do Partido Socialista, António Costa, pulveriza as tréguas assinadas com Seguro, e avança com uma candidatura à liderança do PS. Esperemos, então, pelo congresso extraordinário - que depende da marcação por parte da atual direção ou de um pedido rubricado por metade das federações (e demais agremiações locais) do PS. Note-se que a vitória de Pirro alcançada por PS de Seguro nas eleições para o parlamento europeu foi o limite traçado por Costa, aquando o acordo com Seguro, no qual se instituiu o clima de "paz pobre" no PS. No entanto, o PS alcançou uma vitória eleitoral e as elites internas entram em ebulição. Porém, e atendendo às circunstâncias que envolvem estes partidos, as hostes do PSD e CDS, após uma derrota história, estão num silêncio tumular. Por vezes o silêncio é a melhor defesa. A única, diga-se. Veremos. Não poderia deixar de destacar a acalmia perturbadora de um outro aglomerado político que sofreu uma derrota esclarecedora nas eleições para o parlamento europeu. Obviamente, falo do Bloco de Esquerda. Algo vai mal naquele reino e ninguém se mexe e muito menos admite/aceita a derrota. Temo pelo pior. Em conclusão, em Portugal, a nação das expectativas, as vitórias e derrotas eleitorais são sempre relativas. Há quem ganhe sempre. Há quem nunca perca. Há quem ganhe e inicie uma guerra civil. Há quem perca e não se passe nada.

segunda-feira, 26 de Maio de 2014

brumas no futuro

PS: ganhou por uma migalha, mas Tozé Seguro e as gastas elites dirigentes do PS insistiram toda a noite eleitoral numa "vitória esmagadora". Em negação. Se estes 33% fossem numas legislativas seria uma maioria relativa, uma vitória curta que atestava a incapacidade da liderança de António José Seguro em capitalizar o descontentamento. O PS tem de olhar para si e tirar as conclusões do que o "aparelhismo", o nepotismo e o vazio ideológico tem feito ao partido. Não admira que hoje não se vejam bandeiras à entrada do Altis

PSD-CDS: uma derrota doce. Esta derrota por pequena margem face a "socialistas" sem capacidade de aglomerar o protesto, nem apresentar uma verdadeira alternativa, prende Seguro ao PS para as próximas legislativas. Basta usar os dividendos da saída da troika e a "almofada financeira" para meia dúzia de medidas eleitoralistas e a dulpa Passos-Portas arrisca-se a ganhar as próximas eleições, e forçar os socialistas a vergarem-se numa grande coligação.

CDU: Ganha mais um eurodeputado. Teve uma campanha limpa e centrada nas suas propostas. Consegue algum do eleitorado socialista mais à esquerda, mas acaba por empatar. Não consegue sair daquela fatia de eleitorado fiel, com mais ou menos mozarela.

MPT: Vitória da noite para o populista, justiceiro e ultramontano Marinho e Pinto, que beneficiou da sua projecção mediática e do descontentamento do eleitorado do "Você na TV". O MPT, na verdade, é uma espécie de PNR com pele de cordeiro e alarga a direita em mais 7%. Ah, e que agradeça ao Goucha, o seu oficioso director de campanha, ainda que a Marinho lhê dê comichão os "maricas".

BE: Ficar atrás do MPT, esta noite foi "pior do que falecer".

Livre: conseguiu capitalizar os votos e os apoiantes do canal Q que dantes votavam Bloco de Esquerda, sobretudo em Lisboa. Pode ser que Rui Tavares vire deputado em São Bento. É uma agradável despromoção. Só tem de sobreviver um ano a "pão e água".

Abstenção, brancos e nulos: que agradeçam à campanha em que não se discutiu a Europa, a uma guerra de tomates podres entre os partidos do Arco da Governação e a uma comunicação social que não fez o trabalho que devia. Se pelo menos os brancos e nulos valessem lugares vazios...

EUROPA: A ascensão da extrema-direita devia fazer os partidos sociais-democratas e europeus repensar a sua ligação com as elites financeiras e a deriva neoliberal.

sexta-feira, 23 de Maio de 2014

Há uma linha que separa


E às páginas tantas na sua "lição de democracia", na aula magna do passado dia 16 de maio de 2014 (2:53:19), diz Abílio Alves: "Eu pergunto às pessoas de Cabeceiras de Basto que votaram IPC, se efectivamente ainda se sentem representadas por estes elementos que elegeram?". Eu pergunto, o que pensarão os eleitores que votaram nele?

quarta-feira, 21 de Maio de 2014

No meu relógio são horas de votar


Infectados pelo vírus da apatia geral, é fácil ignorar as europeias, como voto que nos parece entregue a decisões distantes em que pesamos pouco. A verdade é exactamente oposta. Estas são as mais importantes eleições de sempre porque os portugueses tem o direito e o dever de mostrar à Europa o seu desatino com o que esta se tornou: um espaço de influência do eixo franco-alemão, de humilhação dos povos do Sul, de chacota da identidade e da soberania nacional, de guerras de carácter entre povos que antes se uniram num esforço solidário comum. Sou europeísta convicto, mas esta não é a minha Europa e longe estou eu de me ver representado, nestes tempos, por deputados embarcados em partidos que viraram agremiações de "conde andeiros e miguéis de vasconcelos", partidos que tem abominado a opinião dos eleitores, que fazem ouvidos moucos às suas inquietações. É impossível ver este videoclip dos Mão Morta, sem se ferverem as entranhas de tanta falta de consideração da elite política e económica, que assobiam para o lado perante a manifestações pacíficas. Se não tremem perante tamanho descontentamento, que sirvam os votos como balas para penalizar esta ridícula parada de bobos, bem interpretados nas figuras do duo Rangel-Melo e do aparelhismo de couraça do partido socialista. Três mandatários da política da evasão, com os seus dedos em riste, os actos de virgens ofendidas, do boomerang da culpabilidade. Um PSD-CDS que tenta ganhar votos com dois papões, "que podem voltar se os portugueses se portarem mal": Sócrates e a Troika. E um PS, sem projecto político nem verdadeira alternativa, que tenta ganhar dividendos do descontentamento com o Governo. É esta a apresentação geral de uma tríade que nunca discutiu a Europa com os portugueses, não quer discutir a Europa e que prefere que a "europa" decida tudo e que decida por eles e por nós. As europeias podem parecer tão longínquas da nossa vida como Bruxelas, mas são a oportunidade de por no trilho uma União Europeia há muito comboio desgovernado que está prestes a descarrilar, são a oportunidade de chamar à razão um projecto que nos tem defraudado. São a oportunidade de impedir a ascensão do néscio fascismo sobre o húmus da social-democracia degenerada. Pelo meu relógio, são horas de votar!

sexta-feira, 16 de Maio de 2014

A ilusão da mudança

Nas próximas europeias, votar PS, PSD e CDS é votar essencialmente na mesma coisa, no mesmo projecto disforme de Europa, muito afastado dos princípios que fundaram a União. É votar no caminho de um federalismo forçado, que só não tem tentado desfazer as identidades nacionais, a soberania dos povos, como tem acicatado o mais ignóbil e assustador do nacionalismo. Como diz Pacheco Pereira, esta é "uma Europa que se deixou esvaziar do seu melhor". Pior, sob o uso de uma política externa desastrosa e das orientações económicas da Alemanha, tem alimentado a maior vaga de eurocepticismo que me lembro de assistir, dentro e fora do espaço europeu. Eu próprio vejo-me mais um eurocéptico desta Europa decidida nas cúpulas, que humilha os parlamentos e governos nacionais e despreza a opinião dos seus cidadãos na construção da União (lembrai a aversão da Comissão Europeia aos diversos referendos ao Tratado de Lisboa). Os próprios partidos políticos do arco do poder, retiram os olhos do cidadão das decisões que tomam à sua revelia. Estão-se a marimbar para o que os portugueses possam pensar da Europa. Nem querem que se discuta. Fazem antes das "europeias", mais uma ronda na dança das cadeiras, na pole-position nos lugares que já ocupam e só se revezam aqui e ali. Os partidos do governo a ensaiar o melhor resultado possível, sabendo que as perde. E os "socialistas" a tentar segurar a figura insossa do seu secretário-geral. Está o país, como diz Clara Ferreira Alves, entregue a "apparatchiks encarregues de ganhar eleições". Vide só a matilha do reumático que o PS põe na lista. Senadores, que de outro modo já fartaram o calo das nádegas em São Bento e vão reclamar o prémio de lealdade e "sova no lombo" assentando arraiais em Bruxelas. Vide a lista desta nova AD, que não se coibiu de afastar um dos eurodeputados mais trabalhadores, como Diogo Feio, certamente não tão bonito como aquele par de jarros na fronte: o nasal Rangel dos 101 Dálmatas e o carinha de don juan do Nuno Melo e o seu discurso Moët & Chandon com que brindou ao "fim do programa do ajustamento". Os portugueses que bebam champomix.

segunda-feira, 12 de Maio de 2014

o regresso da canção política


O Festival da Eurovisão, ao contrário das últimas edições, teve este ano o significado político de outrora. Voltou, em 2014, a ser palco maior do velho continente no uso da cantiga como arma. A vitória de Conchita Wurst, a drag queen em que se transforma Thomas Neuwirth, vai além da extraordinária performance e da qualidade da canção em si, independentemente das outras boas canções que poderiam ter ganho. É a afirmação do sentimento europeu de paz e de liberdade, espaço onde a verdadeira democracia só o é se abarcar toda a diversidade humana. É sobretudo a vitória de uma Europa, renascida das cinzas da Segunda Guerra Mundial, moderna, tolerante e democrática, contra a hipocrisia do preto e branco, a ditadura da normalização. É a tomada de posição contra a visão da Rússia de Putin sobre o mundo, cabeça de um regime musculado que tem incentivado a perseguição violenta de lésbicas, gays, bissexuais e trangenders (LGBT) naquele país. We're here, we're queer, get used to that.

A saúde e o circo

Não quero minorar a romântica candidatura do Mosteiro de Refojos a património da Humanidade, que mereceu toda a pompa da circunstância na reunião de há dias na Casa do Povo de Arco de Baúlhe, com sala cheia, incentivada pelo fervor do pároco na "defesa do que é nosso", ou coisa parecida. Mais uma "estação na via sacra" que a comitiva municipal tem feito pelas "capelinhas" do concelho. No entanto, era de melhor tom que as entidades da freguesia, ou paróquia, e demais responsáveis concelhios, focassem as suas atenções nos reais problemas da população que se dizem representar. Moribunda que está a extensão de Saúde em Cavez, a verdade é que a Extensão de Saúde de Arco de Baúlhe arrisca-se a encerrar portas. Há já centenas de utentes sem médico de família desde Janeiro e entregues os serviços mínimos a tarefeiros.

Isto é só o primeiro passo para que muitos, senão todos, sejam empurrados para a sede de concelho, já inchada da centralização de serviços. De entre os utentes, não esquecer os quantos que vinham de concelhos vizinhos até ao Arco e faziam girar o comércio desta vila. Isto sim, diz respeito aos arcoenses, à sua economia e à sua identidade. Isto sim, devia levá-los à Casa do Povo. Isto sim, devia levá-los para a Rua como faziam dantes.

quarta-feira, 16 de Abril de 2014

O capitalismo simplesmente não funciona: a desigualdade provocada pela concentração da riqueza ameaça destruir-nos

O trabalho de Thomas Piketty confirma certos pré-conceitos que tinha em relação ao capitalismo, a saber: trabalhando não se enriquece; o berço (o que herdamos) é o elemento determinante da nossa vida económica e social; a desigualdade na concentração de riqueza não é imutável nem um designo divino; promove o individualismo, em toda a sua dimensão diabólica. Permitida pela ideologia do "extremismo meritocrático", de natureza próxima de um darwinismo social, é esta a norma social actual.

Tudo isto pode ser explicado através de um episódio alegórico que não me canso de contar a quem me dê um par de ouvidos:
Era uma vez um João e um Mário. Ambos possuem idênticas condições físicas e mentais, partilhando o mesmo espaço físico. O João, é filho de um operário que tudo fez para lhe dar uma boa educação e o mínimo de condições de subsistência. Herdou do pai, apenas o que o pai lhe deu durante a vida: a educação e a força de viver. O Mário é filho de um latifundiário, que lhe deixou propriedades e um milhão de euros em títulos financeiros e em depósitos a prazo. O João farta-se de trabalhar, suando oito horas por dia, seis dias por semana, num sector que produz bens essenciais. O Mário vive dos rendimentos. Nunca trabalhou nem tem "pretensão" para tal, apenas investe e reinveste o que arrecada com o que herdou em títulos financeiros, sendo um reconhecido "jogador" da roleta da economia financeira. O João vive na base da pirâmide social e de lá não sai, mesmo na eventualidade de trabalhar mais um par de horas por dia. O Mário é por "mérito próprio" um ser socialmente apto que vive uns degraus acima do João na pirâmide social. O João chora todos dias. O Mário vive majestaticamente. Moral: o sistema protege e recompensa os "sortudos", condenando os "azarados". Conclui-se, assim, que tudo se decide no berço, uma consequência por estarmos socialmente estacionados na idade das trevas. Não evoluímos muito, pois não?

Mágico


 Light in Babylon, Hinech Yafa

sexta-feira, 11 de Abril de 2014

da incerteza

Joan Miró.  Ballarina. 1925. Oil on canvas. 115.5 x 88.5 cm. Galerie Rosengart, Lucerne, Switzerland.


A incerteza está aí. De fina imperceptibilidade enreda-nos em torrentes de tristeza que no abraço da insegurança encontra a condição precária em que nosso quotidiano se tornou. O dia de amanhã é tão imprevisível como a primeira gota de chuva que esperamos em algum momento cortar o sufocante enganador seco de uma tarde de trovoada. Tanto está aí o sol resplandecente como a sua luz se mistura de forma indelével com a frescura da precipitação que nos agita no interior mas logo acalma quando a toada passa e a terra apura os sentidos libertando o cheiro da sua natureza fértil.

A incerteza esta aí, como dia de trovoada. Porém, desenganem-se os mais incautos se pensam que a incerteza que vivemos é tanto sinónimo de perigo quanto uns poucos ou mais trovejos e umas cargas de água. A incerteza que vivemos é a do risco, é a da crise das democracias porque as instituições, de outrora (poderá dizer-se,  ainda com algum cepticismo) de pedra firme, se sustentam agora na volatilidade de desejos de uma cúpula de senhores e senhoras em quem mora a tão só a infame vontade de derrubar essas casas de pedra firme a que fomos costumados acreditar e a depositar confiança sob a forma de representação legitima.

Não há representação legitima quando é o próprio processo de representação que se descredibiliza pela força que instituições transnacionais assumem nos atropelos à mais importante soberana condição dessa representação – a vida das pessoas que sustentam a casa de pedra firme(?) chamada Estado.
Até aqui nada de novo. No entanto, a incerteza gerada pela perda de confiança é como gume laminoso que profundamente nos dilacera. Mesmo que a ferida não sangre, com o constante pungir da lâmina, a ferida cicatrizará quando já toda a lâmina estiver dentro de nós, movendo uma dor que nos afasta da condição humana.

É daqui, estou convencido, que ao longo dos anos, e hoje cada vez mais, a humanidade tem sido levada à loucura sob promessas de paz; é daqui que se desencadeiam as passagens de maior crueldade da nossa história. Basta que para tal façamos uma breve reflexão: nunca em nenhum outro momento estivemos tão seguros pelos avanços que a tecnologia permite (em relação à medicina; à previsão de catástrofes; em relação ao avanço de diversas indústrias; em relação à energia, etc…) mas igualmente e paradoxalmente, nunca nos sentimos tão inseguros pela dor que a noção paranoica do risco no aflige.

A noção do risco afasta-nos do nosso papel enquanto cidadãos e enquanto membros de uma comunidade. Sob a sua invisibilidade descreditamos as instituições e escusámo-nos a participar (nem que sempre contrariando e remando contra a maré). Assentamos sobre a noção do “eu” individualizado mais do que nunca e deixamos que laços se vão desprendendo sem sequer perceber que já se romperam há muito, por vezes de forma irreversível. Não podemos viver adiando a morte na ilusão de que amanhã o esquecimento nos entorpecerá um pouco mais os sentidos. A cegueira é contagiante. Quanto a trovoada se pressente (mesmo que o seja todos os dias) só o fortalecimento dos nossos laços comuns, do que nos une, poderá libertar  a insegurança que nos afasta.


Se há algo que aprendi em Orwell é que só no amor reside a maior acção revolucionária de todas.

segunda-feira, 31 de Março de 2014

Claro que havia dinheiro em 2011 para pagar salários e pensões

O que importa destacar é que também neste ponto Barroso mentiu quando fez alusão a que não haveria dinheiro [em 2011] para «pagar salários e pensões».
Ouvi a mentira do "não há dinheiro para pensões e salários" em 2011 e continuo a ouvi-la, incessantemente. Se em 2011 a mentira foi usada como uma táctica política-terrorista com a intenção de captar votos para os partidos do bloco central hoje ela surge para fundamentar e prolongar uma política económica e socialmente arrasadora. Como devemos adjectivar quem conscientemente e demagogicamente mente? Claro, de mentiroso ou mitómano (caso o comportamento seja patologicamente recorrente). Portanto, são mentirosos a roçar o mitómono o eurodeputado Nuno Melo e o nosso conhecido emigrante Durão Barroso, excelsos seres na arte de mentir, pois continuam ainda hoje a mentir, provocando o medo e o terror, por forma a coagir o eleitorado a aceitar as suas contraproducentes teses.  Quem sabe, não estarão a tentar "lavar" a mentira que proferem repetindo-a mil vezes até que seja aceite como verdade. Ainda há quem esteja atento, meus senhores.

sexta-feira, 17 de Janeiro de 2014

Referendo como cortina política dos hipócritas

Apenas os deputados do PSD votaram, hoje, favoravelmente à proposta de se realizar um referendo sobre a coadpoção e a adopção por casais homossexuais. Foi um momento deveras vergonhoso para o parlamento, para os deputados, para o PSD e para a democracia portuguesa. Este referendo carece de legitimidade política, democrática e legal (ver as razões aqui). Mas diz muito, mesmo muito, sobre aquele grupo de deputados que hoje aprovou a proposta para a realização de um referendo, sob disciplina de voto, com o mais ovídio dos comportamentos. Não se referenda direitos humanos. Imaginem só se no tempo do abolicionismo, em Portugal houvesse uma votação popular sob o direito dos escravos serem livres. Se fosse feito um plebiscito, talvez ainda hoje houvesse escravos. Isto significa que recuámos centenas de anos, com estes obscuros deputados do PSD, da JSD e os abstencionistas do CDS. Alarves seres, que por questões de demagogia política usam os direitos humanos para ofoscar a sua própria hipocrisia e tacticismo político de muito baixo nível. Infelizes vetustos, que usam a máscara da juventude.

Agora, um pequeno desabafo sob a questão de fundo: se uma criança pode ser adoptada por um homossexual porque raio não pode ser adoptada por um casal homossexual? Se um pai/mãe morre, a tutela legal de uma criança a seu cargo fica para o sobrevivente pai/mãe. Porque, então, não pode acontecer o mesmo para um casal homossexual? Finalizando, porque raio querem um referendo a algo que reside no campo do bom-senso e dos direitos humanos?

Um dia de luto para Portugal, recuámos 20 anos

 

Os cortes na Ciência e no Emprego Científico atingiram mínimos históricos, recuando 20 anos no número de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento atribuídas. Além das consequências devastadoras para os candidatos é a investigação científica em Portugal que está a ser ferida de morte. Recordo que na Finlândia, há precisamente 20 anos, perante uma crise financeira e económica, houve uma aposta pensada na educação e na ciência concretizando uma estratégia de médio e longo prazo que deu e continua a dar as armas económicas e sociais para resistir, com sucesso, às "tempestades" dos ciclos económicos. Aqui, no canto mais ocidental da Europa, os apátridas que nos governam estão a destruir o futuro desta nação, condenando-a à obscuridade da ignorância e a um modelo económico e social de terceiro mundo. Assistamos, então, passivamente à implosão dos sonhos colectivos, enquanto eles, os apátridas, se governam e se vangloriam do "milagre económico" que está a acontecer nos seus bolsos e nos bolsos dos seus donos. 

 Ler os dados da vergonha: Hoje a investigação recuou 20 anos.

terça-feira, 14 de Janeiro de 2014

Quebrar o silêncio

Um dos destaques dos telejornais do meio-dia de hoje, dizia respeito a uma notícia, que confesso, profundamente chocante. Um jovem de 15 anos suicidou-se por alegadamente ser vítima de bullying por parte dos colegas da escola EB 2, 3 de Palmeira, onde já estaria sinalizada a situação e o aluno era acompanhado pelo psicólogo.

Digo profundamente chocante pelas duas razões mais prementes: em primeiro lugar a tenra idade do jovem residente em Adaúfe, Braga; e a segunda pelas próprias razões, a confirmarem-se, que desencadearam o acto de pôr fim à própria vida - despoletado pelo tratamento de jovens da mesma geração. 
O bullying enquanto fenómeno traumático passível de resultar em fins trágicos como o de este jovem de 15 anos não é nada de novo nas sociedades modernas e não haverá nada na sua análise, psicanalítica, psicológica, criminal e até mesmo muito pouco na análise sociológica (que me é mais próxima) que eu possa acrescentar, se tivermos em conta o fenómeno em si. 
No entanto, gostaria de alertar para que (em jeito de associação ou mesmo de correlação) certos momentos sócio-económicos como os tempos de crise que através de uma má gestão governativa e institucional dos mesmos, são capazes de desencadear socialmente uma profunda desregulação nas relações do individuo, neste caso, quem sabe uma desregulação no seio familiar, que propiciando um estado de desregramento nas sociedades, poderá originar aquilo que, já em 1897, levou Durkheim a apelidar de suicídio anómico.

Por outro lado (não estando obviamente a estabelecer uma relação de causalidade), o contínuo desinvestimento na Escola Pública (ou da destruição da mesma) tanto na sua estrutura educativa, no que diz respeito ao tratamento que tem sido feito aos seus professores sempre na incerteza do amanhã e na redução de psicólogos, como na sua estrutura logística, com cada vez menos funcionários para cada vez mais alunos, preenchendo cada vez mais, turmas maiores, está associada a um pior acompanhamento dos estudantes numa idade em que a socialização secundária é ainda terra movediça a assentar sob com as enormes inseguranças da adolescência. Ainda para além disso, chegando a casa encontram no seio familiar o cansaço paternal e maternal, sob a pressão contínua pela manutenção dos postos de trabalho na ameaça desemprego crescente. 

Parece-vos que exagero com esta relação? Não me parece. Numa sociedade em que a consciência colectiva, como nos diria Durkheim, está constantemente ameaçada e são estimulados os instintos egoístas pela quebra da solidariedade social, cada uma e toda a acção humana está estritamente ligada e é reflexo da "sanidade de todo o organismo". Hoje em dia, e temo que progressivamente piorando, o organismo sofre em silêncio até que certas partes suas (por mais pequenas e isoladas que sejam) decidem matar-se. 

Deixo em nota final um vídeo promovido pela APAVem parceria com a Disney Channel contra o bullying intitulado "Quebra o teu silêncio":


tão humano quanto isso

Não sou muito de falar de futebol, porque cinjo agora as minhas atenções ao jogo em si, durante 90 minutos, não leio jornais desportivos nem revistas cor de rosa. Fiquei no entanto agradado com o Balon D'Or entregue a Cristiano Ronaldo. A parte o futebol em si, a grande lição disto tudo é que não basta ser-se naturalmente virtuoso ou geneticamente programado para se ser o melhor, se não houver o desejo de nos superarmos. Tal qual a personagem Vincent  de "Gattaca", o maior génio de Ronaldo é mesmo a sua vontade.