quarta-feira, 16 de Abril de 2014

O capitalismo simplesmente não funciona: a desigualdade provocada pela concentração da riqueza ameaça destruir-nos

O trabalho de Thomas Piketty confirma certos pré-conceitos que tinha em relação ao capitalismo, a saber: trabalhando não se enriquece; o berço (o que herdamos) é o elemento determinante da nossa vida económica e social; a desigualdade na concentração de riqueza não é imutável nem um designo divino; promove o individualismo, em toda a sua dimensão diabólica. Permitida pela ideologia do "extremismo meritocrático", de natureza próxima de um darwinismo social, é esta a norma social actual.

Tudo isto pode ser explicado através de um episódio alegórico que não me canso de contar a quem me dê um par de ouvidos:
Era uma vez um João e um Mário. Ambos possuem idênticas condições físicas e mentais, partilhando o mesmo espaço físico. O João, é filho de um operário que tudo fez para lhe dar uma boa educação e o mínimo de condições de subsistência. Herdou do pai, apenas o que o pai lhe deu durante a vida: a educação e a força de viver. O Mário é filho de um latifundiário, que lhe deixou propriedades e um milhão de euros em títulos financeiros e em depósitos a prazo. O João farta-se de trabalhar, suando oito horas por dia, seis dias por semana, num sector que produz bens essenciais. O Mário vive dos rendimentos. Nunca trabalhou nem tem "pretensão" para tal, apenas investe e reinveste o que arrecada com o que herdou em títulos financeiros, sendo um reconhecido "jogador" da roleta da economia financeira. O João vive na base da pirâmide social e de lá não sai, mesmo na eventualidade de trabalhar mais um par de horas por dia. O Mário é por "mérito próprio" um ser socialmente apto que vive uns degraus acima do João na pirâmide social. O João chora todos dias. O Mário vive majestaticamente. Moral: o sistema protege e recompensa os "sortudos", condenando os "azarados". Conclui-se, assim, que tudo se decide no berço, uma consequência por estarmos socialmente estacionados na idade das trevas. Não evoluímos muito, pois não?

Mágico


 Light in Babylon, Hinech Yafa

sexta-feira, 11 de Abril de 2014

da incerteza

Joan Miró.  Ballarina. 1925. Oil on canvas. 115.5 x 88.5 cm. Galerie Rosengart, Lucerne, Switzerland.


A incerteza está aí. De fina imperceptibilidade enreda-nos em torrentes de tristeza que no abraço da insegurança encontra a condição precária em que nosso quotidiano se tornou. O dia de amanhã é tão imprevisível como a primeira gota de chuva que esperamos em algum momento cortar o sufocante enganador seco de uma tarde de trovoada. Tanto está aí o sol resplandecente como a sua luz se mistura de forma indelével com a frescura da precipitação que nos agita no interior mas logo acalma quando a toada passa e a terra apura os sentidos libertando o cheiro da sua natureza fértil.

A incerteza esta aí, como dia de trovoada. Porém, desenganem-se os mais incautos se pensam que a incerteza que vivemos é tanto sinónimo de perigo quanto uns poucos ou mais trovejos e umas cargas de água. A incerteza que vivemos é a do risco, é a da crise das democracias porque as instituições, de outrora (poderá dizer-se,  ainda com algum cepticismo) de pedra firme, se sustentam agora na volatilidade de desejos de uma cúpula de senhores e senhoras em quem mora a tão só a infame vontade de derrubar essas casas de pedra firme a que fomos costumados acreditar e a depositar confiança sob a forma de representação legitima.

Não há representação legitima quando é o próprio processo de representação que se descredibiliza pela força que instituições transnacionais assumem nos atropelos à mais importante soberana condição dessa representação – a vida das pessoas que sustentam a casa de pedra firme(?) chamada Estado.
Até aqui nada de novo. No entanto, a incerteza gerada pela perda de confiança é como gume laminoso que profundamente nos dilacera. Mesmo que a ferida não sangre, com o constante pungir da lâmina, a ferida cicatrizará quando já toda a lâmina estiver dentro de nós, movendo uma dor que nos afasta da condição humana.

É daqui, estou convencido, que ao longo dos anos, e hoje cada vez mais, a humanidade tem sido levada à loucura sob promessas de paz; é daqui que se desencadeiam as passagens de maior crueldade da nossa história. Basta que para tal façamos uma breve reflexão: nunca em nenhum outro momento estivemos tão seguros pelos avanços que a tecnologia permite (em relação à medicina; à previsão de catástrofes; em relação ao avanço de diversas indústrias; em relação à energia, etc…) mas igualmente e paradoxalmente, nunca nos sentimos tão inseguros pela dor que a noção paranoica do risco no aflige.

A noção do risco afasta-nos do nosso papel enquanto cidadãos e enquanto membros de uma comunidade. Sob a sua invisibilidade descreditamos as instituições e escusámo-nos a participar (nem que sempre contrariando e remando contra a maré). Assentamos sobre a noção do “eu” individualizado mais do que nunca e deixamos que laços se vão desprendendo sem sequer perceber que já se romperam há muito, por vezes de forma irreversível. Não podemos viver adiando a morte na ilusão de que amanhã o esquecimento nos entorpecerá um pouco mais os sentidos. A cegueira é contagiante. Quanto a trovoada se pressente (mesmo que o seja todos os dias) só o fortalecimento dos nossos laços comuns, do que nos une, poderá libertar  a insegurança que nos afasta.


Se há algo que aprendi em Orwell é que só no amor reside a maior acção revolucionária de todas.

segunda-feira, 31 de Março de 2014

Claro que havia dinheiro em 2011 para pagar salários e pensões

O que importa destacar é que também neste ponto Barroso mentiu quando fez alusão a que não haveria dinheiro [em 2011] para «pagar salários e pensões».
Ouvi a mentira do "não há dinheiro para pensões e salários" em 2011 e continuo a ouvi-la, incessantemente. Se em 2011 a mentira foi usada como uma táctica política-terrorista com a intenção de captar votos para os partidos do bloco central hoje ela surge para fundamentar e prolongar uma política económica e socialmente arrasadora. Como devemos adjectivar quem conscientemente e demagogicamente mente? Claro, de mentiroso ou mitómano (caso o comportamento seja patologicamente recorrente). Portanto, são mentirosos a roçar o mitómono o eurodeputado Nuno Melo e o nosso conhecido emigrante Durão Barroso, excelsos seres na arte de mentir, pois continuam ainda hoje a mentir, provocando o medo e o terror, por forma a coagir o eleitorado a aceitar as suas contraproducentes teses.  Quem sabe, não estarão a tentar "lavar" a mentira que proferem repetindo-a mil vezes até que seja aceite como verdade. Ainda há quem esteja atento, meus senhores.

sexta-feira, 17 de Janeiro de 2014

Referendo como cortina política dos hipócritas

Apenas os deputados do PSD votaram, hoje, favoravelmente à proposta de se realizar um referendo sobre a coadpoção e a adopção por casais homossexuais. Foi um momento deveras vergonhoso para o parlamento, para os deputados, para o PSD e para a democracia portuguesa. Este referendo carece de legitimidade política, democrática e legal (ver as razões aqui). Mas diz muito, mesmo muito, sobre aquele grupo de deputados que hoje aprovou a proposta para a realização de um referendo, sob disciplina de voto, com o mais ovídio dos comportamentos. Não se referenda direitos humanos. Imaginem só se no tempo do abolicionismo, em Portugal houvesse uma votação popular sob o direito dos escravos serem livres. Se fosse feito um plebiscito, talvez ainda hoje houvesse escravos. Isto significa que recuámos centenas de anos, com estes obscuros deputados do PSD, da JSD e os abstencionistas do CDS. Alarves seres, que por questões de demagogia política usam os direitos humanos para ofoscar a sua própria hipocrisia e tacticismo político de muito baixo nível. Infelizes vetustos, que usam a máscara da juventude.

Agora, um pequeno desabafo sob a questão de fundo: se uma criança pode ser adoptada por um homossexual porque raio não pode ser adoptada por um casal homossexual? Se um pai/mãe morre, a tutela legal de uma criança a seu cargo fica para o sobrevivente pai/mãe. Porque, então, não pode acontecer o mesmo para um casal homossexual? Finalizando, porque raio querem um referendo a algo que reside no campo do bom-senso e dos direitos humanos?

Um dia de luto para Portugal, recuámos 20 anos

 

Os cortes na Ciência e no Emprego Científico atingiram mínimos históricos, recuando 20 anos no número de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento atribuídas. Além das consequências devastadoras para os candidatos é a investigação científica em Portugal que está a ser ferida de morte. Recordo que na Finlândia, há precisamente 20 anos, perante uma crise financeira e económica, houve uma aposta pensada na educação e na ciência concretizando uma estratégia de médio e longo prazo que deu e continua a dar as armas económicas e sociais para resistir, com sucesso, às "tempestades" dos ciclos económicos. Aqui, no canto mais ocidental da Europa, os apátridas que nos governam estão a destruir o futuro desta nação, condenando-a à obscuridade da ignorância e a um modelo económico e social de terceiro mundo. Assistamos, então, passivamente à implosão dos sonhos colectivos, enquanto eles, os apátridas, se governam e se vangloriam do "milagre económico" que está a acontecer nos seus bolsos e nos bolsos dos seus donos. 

 Ler os dados da vergonha: Hoje a investigação recuou 20 anos.

terça-feira, 14 de Janeiro de 2014

Quebrar o silêncio

Um dos destaques dos telejornais do meio-dia de hoje, dizia respeito a uma notícia, que confesso, profundamente chocante. Um jovem de 15 anos suicidou-se por alegadamente ser vítima de bullying por parte dos colegas da escola EB 2, 3 de Palmeira, onde já estaria sinalizada a situação e o aluno era acompanhado pelo psicólogo.

Digo profundamente chocante pelas duas razões mais prementes: em primeiro lugar a tenra idade do jovem residente em Adaúfe, Braga; e a segunda pelas próprias razões, a confirmarem-se, que desencadearam o acto de pôr fim à própria vida - despoletado pelo tratamento de jovens da mesma geração. 
O bullying enquanto fenómeno traumático passível de resultar em fins trágicos como o de este jovem de 15 anos não é nada de novo nas sociedades modernas e não haverá nada na sua análise, psicanalítica, psicológica, criminal e até mesmo muito pouco na análise sociológica (que me é mais próxima) que eu possa acrescentar, se tivermos em conta o fenómeno em si. 
No entanto, gostaria de alertar para que (em jeito de associação ou mesmo de correlação) certos momentos sócio-económicos como os tempos de crise que através de uma má gestão governativa e institucional dos mesmos, são capazes de desencadear socialmente uma profunda desregulação nas relações do individuo, neste caso, quem sabe uma desregulação no seio familiar, que propiciando um estado de desregramento nas sociedades, poderá originar aquilo que, já em 1897, levou Durkheim a apelidar de suicídio anómico.

Por outro lado (não estando obviamente a estabelecer uma relação de causalidade), o contínuo desinvestimento na Escola Pública (ou da destruição da mesma) tanto na sua estrutura educativa, no que diz respeito ao tratamento que tem sido feito aos seus professores sempre na incerteza do amanhã e na redução de psicólogos, como na sua estrutura logística, com cada vez menos funcionários para cada vez mais alunos, preenchendo cada vez mais, turmas maiores, está associada a um pior acompanhamento dos estudantes numa idade em que a socialização secundária é ainda terra movediça a assentar sob com as enormes inseguranças da adolescência. Ainda para além disso, chegando a casa encontram no seio familiar o cansaço paternal e maternal, sob a pressão contínua pela manutenção dos postos de trabalho na ameaça desemprego crescente. 

Parece-vos que exagero com esta relação? Não me parece. Numa sociedade em que a consciência colectiva, como nos diria Durkheim, está constantemente ameaçada e são estimulados os instintos egoístas pela quebra da solidariedade social, cada uma e toda a acção humana está estritamente ligada e é reflexo da "sanidade de todo o organismo". Hoje em dia, e temo que progressivamente piorando, o organismo sofre em silêncio até que certas partes suas (por mais pequenas e isoladas que sejam) decidem matar-se. 

Deixo em nota final um vídeo promovido pela APAVem parceria com a Disney Channel contra o bullying intitulado "Quebra o teu silêncio":


tão humano quanto isso

Não sou muito de falar de futebol, porque cinjo agora as minhas atenções ao jogo em si, durante 90 minutos, não leio jornais desportivos nem revistas cor de rosa. Fiquei no entanto agradado com o Balon D'Or entregue a Cristiano Ronaldo. A parte o futebol em si, a grande lição disto tudo é que não basta ser-se naturalmente virtuoso ou geneticamente programado para se ser o melhor, se não houver o desejo de nos superarmos. Tal qual a personagem Vincent  de "Gattaca", o maior génio de Ronaldo é mesmo a sua vontade. 

segunda-feira, 13 de Janeiro de 2014

Falácias e mentiras, rumo a um futuro pior

As pensões e salários pagos pelo Estado ultrapassam os 70% da despesa pública, logo é aí que se tem que cortar”. O número está, desde logo, errado: são 42,2% (OE 2014). Quanto às pensões, quem assim faz as contas esquece-se que ao seu valor bruto há que descontar a parte das contribuições que só existem por causa daquelas.
Este é o primeiro ponto (de onze) de um texto em que o perigoso esquerdista Bagão Félix desmonta as falácias e as mentiras, sobre as pensões e os números, que temos ouvido deste (des)governo e apaniguados. De obrigatória leitura, aqui: http://www.publico.pt/sociedade/noticia/falacias-e-mentiras-sobre-pensoes-1619400

quinta-feira, 9 de Janeiro de 2014

Quão longínqua a Humanidade?

Norilsk, na Sibéria (Rússia), pela fotografa Elena Chernyshova


Todos os dias somos surpreendidos com a capacidade de sobrevivência de homens e mulheres em diferentes partes do mundo, de onde nos chegam relatos pelos canais mediáticos de todo o tipo. Alguém viveu duas década num túnel de esgoto de uma cidade para poupar dinheiro, ou um bebé que tendo sido encontrado num cano de esgoto, foi retirado e sobreviveu. Os inúmero relatos de violência extrema nas centenas de guerras e guerrilhas em todo o mundo, ou como comummente conhecido, no submundo, onde convenientemente multinacionais se encontram sugando recursos, patrocinando e perpetuando conflitos internos para permanecerem como arautos da democratização capitalizada no mercado livre (veja-se onde começou e onde pára a Primavera Árabe), veja-se o caso do Líbano nos seus inúmeros conflitos, veja-se ainda o caso de gritante atropelo à Humanidade, da Faixa de Gaza. Por outro lado, temos a emigração de guerra ou a do desespero, temos os refugiados, aos milhares tentado uma porta para a Europa, naufragando na costa ou retidos na ilha italiana de Lampedusa. A tudo isto e a tanta outra coisa a comunidade internacional, na alta moralidade dos seus líderes critica veemente, mas assobiando para o lado, não se unindo naquela que seria a verdadeira discussão do problema na vontade de o resolver - atacá-lo na raiz.
Há, assim sendo, uns que lutam por sobreviver pelas condições socioeconómicas, culturais, por factores externos que os impelem à sobrevivência. Enquanto outros, como os habitantes de Norilsk na Rússia, escolhem (livremente) viver, dia após dia, numa convicta afronta aos limites da sobrevivência, respondendo que a Humanidade é tão longínqua quão longínqua for a vontade. 
A fotografa Elena Chernyshova esteve na cidade de Norislk, para o projecto "Days of Night, Night of Days", sobre cidades com características únicas e especiais. Em Norislk as temperaturas variam entre os -10 e os -55 graus Celsius durante todo o ano, durante dois meses experimentam a noite polar, isto é a cidade não vê a luz do sol. É a sexta cidade mais poluída do mundo, de onde resulta que a esperança média de vida seja dez anos mais baixa do que no resto do território russo. Ali vivem perto de 175 mil pessoas. 

Hoje, a gentes de Norilsk fizeram-me rever a pergunta que dá título à publicação. Na sua longínqua vida parecem, por escolha própria, ter encontrado entre a força de viver e a condição humana o apego à terra, de forma tão genuína que quando saem desta inóspita cidade, a lembram com saudade. 

Ler mais aqui

quarta-feira, 8 de Janeiro de 2014

Barragens, para que te quero?

O raciocínio é simples: os autarcas de Basto preferem ganhos económicos a curto prazo em detrimento de tudo o resto. É uma tautologia local, ou seja, independentemente da personalidade, e demais corpo, que ocupe o cargo (presidente) a posição é sempre a mesma: queremos as barragens, haja o que houver, aconteça o que acontecer. 
O ritmo discursivo é conhecido: barragens, elas não são benéficas mas são necessárias para região; munícipes, os ganhos económicos, o desenvolvimento local e a energia, ai, a energia, sobrepõem-se ao embuste rendeiro do Plano Nacional de Barragens e à destruição que ela prevê para Basto
Desta vez foi o atual, e recém-eleito, presidente da Câmara de Ribeira de Pena, Rui Vaz Alves, a confirmar a vericidade da tautologia atrás enunciada. Em declarações à comunicação social, Rui Vaz Alves destaca que as barragens são uma "mais-valia" para Ribeira de Pena, do ponto de vista "económico e financeiro", mas fez questão de frisar que não quer que ela se concretize "a qualquer custo e de qualquer forma". 
O (grande) problema é que as barragens previstas para o Tâmega não podem ser relativizadas e muito menos justificadas com o argumento de que os seus malefícios, custos, vá, possam ser eliminados ou menorizados. O mal, o custo, destas barragens é tremendo, seja à cota X ou Y, seja com investimentos pequenos ou graúdos. Como apontamento final, deixo uma frase batida: se as barragens trouxessem, por si só, desenvolvimento e progresso, elas há muito que estariam encostadas ao litoral ou, então, o Interior português estaria a ser vendido como um caso de estudo do dinamismo económico. Os factos andam por aí. É vê-los.

terça-feira, 7 de Janeiro de 2014

The Lotus eaters

Frente de vitória e liberdade, um esboço

O Manifesto 3D (Dignidade, Democracia e Desenvolvimento) anunciou que vai formalizar, esta semana, a proposta ao Bloco de Esquerda, à Comissão Instaladora do LIVRE e à direção da Associação Renovação Comunista para uma candidatura conjunta às eleições europeias. Esta proposta, que deverá conter uma base programática com respostas à crise, é entendida como a consequência lógica de outros acontecimentos (como os congressos da esquerda) que visa alimentar o sonho de uma frente eleitoral da esquerda portuguesa que ombreie ou ameace a hegemonia política do centro e da direita política portuguesa. Parte dos pressupostos correctos: a) a alternativa ao choque neoliberal da sociedade portuguesa desenha-se dentro das instâncias europeias; b) que a crise é supranacional e de foro ideológico; e c) é com a união (de propostas e figuras) das esquerdas que poderá haver uma alternativa política real e concretizável. A acontecer, será algo inédito em Portugal e um excelente prenúncio para as próximas legislativas.

Dúvidas presidenciais

Porque será que o nosso presidente da República, o decano político português que há praticamente três décadas não arreda pé de cargos de responsabilidade, não pediu uma fiscalização preventiva do Orçamento do Estado para 2014, quando em 2012 o fez para o Orçamento do Estado para 2013 que continha normas constitucionalmente mais brandas? Para preservar, aos incautos, a sua (boa) imagem política, pois claro. Cavaco Silva exerce as suas funções presidenciais exclusivamente para alimentar a sua falsa imagem de sério, de competente e de clarividente político. Na prática, não temos um presidente da República. Temos, sim, um egocêntrico vaidoso que reside em Belém.

segunda-feira, 6 de Janeiro de 2014

“Donos de Portugal” em versão ecossistema interativo

Quem visitar o site criado pelo designer Pedro Cruz é confrontado com um ecossistema interativo no qual as empresas são representadas por círculos e os políticos que integraram o governo entre 1975 e 2013 por “organismos vivos” cujas parecenças com formigas ou baratas são visíveis. A dimensão das empresas, leia-se dos círculos, depende do número de políticos que já a integrou. Esta animação, na qual é possível interagir com 119 políticos e 350 empresas portuguesas, foi elaborada com base na informação detalhada no livro "Donos de Portugal", de Jorge Costa, Luís Fazenda, Francisco Louçã e Fernando Rosas, que deu posteriormente origem a um documentário, estreado no dia 25 de abril de 2012 na RTP2 e que, em ano e meio de divulgação, superou meio milhão de visualizações. Tendo em conta que o Donos de Portugal retrata as teias de relações com base em informações recolhidas até 2010, Pedro Cruz completou os percursos dos governantes até 2013, incluindo informação de um estudo sobre as ligações políticas das empresas cotadas em bolsa, de Maria Teresa Bianchi. in [Esquerda.net]

domingo, 5 de Janeiro de 2014

Emocionai-vos

Vivemos um tempo interessante. Na vertigem de um tempo em que ser emocionalmente apático é ser-se apto, há quem trabalhe em sentido contrário. Este vídeo apresenta uma instalação artística intitulada de Emotional Arcade. Baseia-se num jogo simples, em que o vencedor é aquele que mais sente. Algo simples mas que encerra uma atitude complexa que nos rege individual e colectivamente: o desejo humano de controlar e manipular as nossas emoções e suas manifestações. Neste mundo moderno, que recompensa o silêncio em detrimento da emoção, emocionar é, deveras, um acto revolucionário. 

domingo, 29 de Dezembro de 2013

O Golpe de Vista

Pieter Brueghel the Elder, “Big Fish Eat Little Fish” (1557)


Há um ditado chinês que diz assim :“Não importa o tamanho da montanha, ela não pode tapar o sol.”
De facto, não importa o tamanho da montanha, seja ela qual for, que o sol quando nasce, nascerá sempre livre, desprovido de qualquer tentativa de hercúlea presunção para impedir que esse se veja. O sol, independentemente das montanhas que se atravessem na sua irradiação, quando nasce, nasce para todos. 
A metafórica nota introdutória é aqui usada para ilustrar em jeito de comparação certas montanhas que de quando em vez teimam em armar-se de um poder (limitado porque delegado) para o extrapolar em actos tão rasteiros como o chão, a roçar o cúmulo do absurdo. Falo de certas montanhas que se aproveitam dos seus alicerces enraizados profundamente num habitus de quero, posso e mando, para encenar episódios dignos de um Oscar de latão, se esse existisse, premiando a falsidade bacoca. 
Anteontem, assisti, na qualidade de cidadão do concelho de Cabeceiras de Basto, pela primeira vez a uma Assembleia Municipal no direito que o disposto no ponto primeiro do artigo 38º do Regimento da Assembleia Municipal do Município de Cabeceiras de Basto me concede a mim e a qualquer outro cidadão que queira assistir a esta sessão de carácter público.

Diz o ditado que tanta vez vai o cântaro à fonte que acaba por lá ficar, ora que na presente situação não precisou de ir o cântaro à fonte muitas vezes ( bastou-me ir uma vez à Assembleia Municipal) nem tão pouco acabou por lá ficar, já que fui, perto da meia-noite,  de forma prepotente, arrogante e desprovida de sentido racionalmente entendido, convidado a sair pelo presidente da Assembleia Municipal. Sim, não fiquem, para utilizar a expressão do senhor deputado municipal Domingos Machado, estupefactos. A verdade é esta e só esta, fui convidado a sair ( para não dizer "posto na rua") por alegadamente,  e passo a citar as palavras do presidente da Assembleia Municipal, " ter feito expressões faciais e gestos com os olhos" que não seriam do seu agrado, já que mais nenhuma vivalma demonstrou o seu desagrado ou incómodo. Digo que a verdade é esta e só esta, porque qualquer pessoa que ali naquela sala presenciou este insólito acontecimento não poderá se não confirmar que não emiti qualquer som, nem sequer o do estalar dos joelhos que há duas horas aguentavam o corpo que estando ali a assistir nem sequer uma cadeira tinha para tal efeito ( e a sala nem cheia estava), ou gesto manual que pudesse ser entendido como provocatório, já que mantinha as mãos convenientemente dentro dos bolsos que a sala não é propriamente de temperatura confortável. 

Façamos a leitura à luz da lei: o ponto segundo do mesmo artigo 38º já citado, diz-nos que: A nenhum cidadão é permitido interromper ou perturbar a ordem dos trabalhos, sob pena de aplicação das respectivas sanções legais. Em primeiro lugar como já referi, duvido que os meus gestos com os olhos ( que exorto o presidente da AM a descrever o que entende por tais gestos) tenham interferido com a ordem dos trabalhos uma vez que é fisicamente impossível interromper o som das palavras através do movimento ocular. Segundo, mesmo que fosse possível, fico desde já sr.presidente da AM muito lisonjeado pelas qualidades que me atribui ao olhar, que poderíamos chamar de olhar matador. Terceiro, analisando a actuação do sr.presidente da AM, segundo a alínea d) do artigo 15º do Regimento da AM, que nos diz que é competência do Presidente da Assembleia manter a disciplina das reuniões, vemos que a descabida demonstração de força ao convidar-me a sair encontra-se nesta alínea, porém, não existiu na realidade qualquer necessidade de repor a disciplina uma vez que ela nunca esteve em causa na sessão, a não ser do resultado deste mesmo espectáculo engenhosamente encenado pelo sr.presidente da AM que de longa experiência se tornou mestre na arte. De resto, espectáculo que já havia sido encetado resultando em mais de duas horas de sessão sem sequer se ter entrado na ordem do dia. 

Por último, levo da minha primeira experiência neste tipo de participação cívica consagrada por direito na lei, uma triste e deplorável actuação por quem, por direito e dever, tem a missão de levar a bom porto o melhor seguimento possível das sessões de Assembleia, zelando, através da isenção, por diálogo e prática responsável da actividade politica. Ao invés, como já referi num artigo  neste blog publicado, a prática corrente da diversão para iludir e amedrontar reinou novamente nos corredores do poder autárquico. 
Na verdade não perturbei ou interrompi a sessão no seu todo, mas apenas no entendimento de um sujeito em particular que se sentiu incomodado pelo olhar frontal. Bem sei que o seu hábito é olhar e ver rostos cabisbaixos de submissão, mas aqui não os encontrará, e não os encontrando revela a sua verdadeira face, a sua verdadeira persona, revela o rosto da ira, o rosto do caciquismo, como enorme peixe ávido de gula pelos mais pequenos. 
Por mais montanhas que se ergam da pomposidade do cadeirão vermelho o sol não será vedado, nem anteontem nem nunca.


domingo, 22 de Dezembro de 2013

meu querido editorial: quase tudo como dantes.

Passada a ressaca eleitoral e a análise semifria dos resultados saídos das urnas, seria de esperar alguma mudança em Cabeceiras de Basto. Mais ainda depois de uma campanha marcada pelo discurso de ruptura com 20 anos de virtudes, defeitos e sobretudo muito desgaste. Mais ainda pela expectativa de que a noite de 29 de Setembro marcasse uma viragem na forma de fazer política neste concelho, menos monolítica e muito mais aberta à sociedade civil, ou que pelo menos a deixasse em paz. A vitória relativa do partido socialista obrigaria a isso, especialmente se a oposição, agora em maioria na Câmara, fizesse jus aos seus comícios, artigos de opinião, tempos de antena e altifalantes.

 No entanto, os dias que se seguiram foram marcados por uma quase reposição do popular “Perdoa-me” de Fátima Lopes. No jogo de anca e manobra de bastidores, a evocação de um “bem maior” que deixou a todos perplexos, alguns dos antigos acicatados animais ferozes domesticaram-se mutuamente, permitiram uma coligação entre rivais que resultou, na prática, numa renovação de poder do presidente de câmara cessante, contra a maré da lei de limitação de mandatos. Sim, falo da nomeação de Joaquim Barreto para a Basto Vida, com a alavanca de Mário Leite e Abílio Alves, para que se alongue um pouco a memória curta. Alguns leitores até podem achar que não, mas ao entregar a presidência de uma cooperativa municipal, com grande parte da actividade camarária, atribuiu-se um "papel executivo de presidente de câmara" a quem não foi eleito para isso. Pior ainda quando se delegou o posto a alguém que foi mandatado (e o próprio fez questão de assim assumir) para outra coisa. Ficou assim o concelho preso na engrenagem esquisita de um mecanismo de aparente incompatibilidade ética e institucional: um Presidente de Câmara que presta contas ao órgão (Assembleia Municipal) presidido pelo presidente de uma cooperativa (Basto Vida) que presta contas ao Presidente de Câmara. Um triângulo amoroso a dois, de ângulo esdrúxulo, onde há uma figura que ocupa dois vértices, confundindo todos e que aproveita o palanque mediático para olhar o plenário, onde espelha todos os seus feitios.

O resultado está aí, nos sites oficiais da autarquia, na postura em assembleia municipal, nas fotos e na pose. O fenómeno, mais que inchar o ego do perpetuado, diminui claramente quem foi legitimamente eleito presidente de Câmara e vereador com pelouro, porque fica assim nuzinho na sua falta de vontade e preparação técnica e política para aquilo que foi mandatado. A demonstrar, caso provavelmente sem paralelo no país, a Basto Vida, qual fénix renascida das cinzas da Emunibasto, a partilhar ombro a ombro o protagonismo com a Câmara Municipal. A presidência municipal, quando não é "um monstro de duas cabeças", faz-se representar no mesmo folclore triste de há um ano atrás.

 Parece tudo como de antes. Parece, mas não tem que ser. Aos muitos eleitos da oposição, como aos outros, como a todos os que fazem a participação cívica, cabe a missão que lhe foi mandatada pela maioria dos eleitores cabeceirenses: fazer a denúncia dos atropelos à ética democrática, fazer cumprir um programa de governo que, respeitando as diferenças, integre os sonhos de todos os munícipes. Até lá, Cabeceiras continuará órfã de uma presidência de todos e para todos.

Boas festas e Feliz 2014.

editorial do Jornal O Basto, 17 de dezembro de 2013