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Joan Miró. Ballarina. 1925. Oil on canvas. 115.5 x 88.5 cm. Galerie Rosengart, Lucerne, Switzerland. |
A incerteza está aí. De fina imperceptibilidade enreda-nos
em torrentes de tristeza que no abraço da insegurança encontra a condição
precária em que nosso quotidiano se tornou. O dia de amanhã é tão imprevisível
como a primeira gota de chuva que esperamos em algum momento cortar o sufocante
enganador seco de uma tarde de trovoada. Tanto está aí o sol resplandecente
como a sua luz se mistura de forma indelével com a frescura da precipitação que
nos agita no interior mas logo acalma quando a toada passa e a terra apura os
sentidos libertando o cheiro da sua natureza fértil.
A incerteza esta aí, como dia de trovoada. Porém, desenganem-se
os mais incautos se pensam que a incerteza que vivemos é tanto sinónimo de
perigo quanto uns poucos ou mais trovejos e umas cargas de água. A incerteza
que vivemos é a do risco, é a da crise das democracias porque as instituições,
de outrora (poderá dizer-se, ainda com
algum cepticismo) de pedra firme, se sustentam agora na volatilidade de desejos
de uma cúpula de senhores e senhoras em quem mora a tão só a infame vontade de
derrubar essas casas de pedra firme a que fomos costumados acreditar e a depositar
confiança sob a forma de representação legitima.
Não há representação legitima quando é o próprio processo de
representação que se descredibiliza pela força que instituições transnacionais
assumem nos atropelos à mais importante soberana condição dessa representação –
a vida das pessoas que sustentam a casa de pedra firme(?) chamada Estado.
Até aqui nada de novo. No entanto, a incerteza gerada pela
perda de confiança é como gume laminoso que profundamente nos dilacera. Mesmo
que a ferida não sangre, com o constante pungir da lâmina, a ferida cicatrizará
quando já toda a lâmina estiver dentro de nós, movendo uma dor que nos afasta
da condição humana.
É daqui, estou convencido, que ao longo dos anos, e hoje
cada vez mais, a humanidade tem sido levada à loucura sob promessas de paz; é
daqui que se desencadeiam as passagens de maior crueldade da nossa história.
Basta que para tal façamos uma breve reflexão: nunca em nenhum outro momento
estivemos tão seguros pelos avanços que a tecnologia permite (em relação à
medicina; à previsão de catástrofes; em relação ao avanço de diversas
indústrias; em relação à energia, etc…) mas igualmente e paradoxalmente, nunca
nos sentimos tão inseguros pela dor que a noção paranoica do risco no aflige.
A noção do risco afasta-nos do nosso papel enquanto cidadãos
e enquanto membros de uma comunidade. Sob a sua invisibilidade descreditamos as
instituições e escusámo-nos a participar (nem que sempre contrariando e remando
contra a maré). Assentamos sobre a noção do “eu” individualizado mais do que nunca e deixamos que laços se vão desprendendo sem sequer perceber que já
se romperam há muito, por vezes de forma irreversível. Não podemos viver
adiando a morte na ilusão de que amanhã o esquecimento nos entorpecerá um pouco
mais os sentidos. A cegueira é contagiante. Quanto a trovoada se pressente
(mesmo que o seja todos os dias) só o fortalecimento dos nossos laços comuns,
do que nos une, poderá libertar a
insegurança que nos afasta.
Se há algo que aprendi em Orwell é que só no amor reside a maior acção revolucionária
de todas.
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