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| Rene Magritte Lithograph, Golconde |
As últimas eleições autárquicas de 2013 instauraram uma ordem inédita na vida politica cabeceirense, e, consequentemente, uma agitação invulgar, nas conversas passageiras, nos sussurros e mexericos , nos comentários, comunicados e demais escritos envoltos. Contra mim falo que sobre esta matéria tenho escrito diversas vezes. Não me desculpem, se o fiz em demasiada, porque não penso que o tenha sido. É que esta esta nova ordem politica é tão cómica quanto trágica.
Da comédia:
Primeiro, apesar de fielmente o presidente fantoche ter consentido a presença (omnipresente) de Barreto a seu lado nos cartazes sob a justificação de "Candidato à Assembleia Municipal", mesmo que ninguém mordesse o engodo, agora já nem engodo existe a julgar pela recente nomeação do "imortal" para Presidente da Basto Vida - nomeação de resto aconchegada por um brilhante tiro no pé politico do Prof. Mário Leite. Este último, de resto, se bem se lembram, inflamado opositor do "regime barretista" - expressão por si utilizada em plena campanha.
Segundo, quem assistir a qualquer cerimónia oficial assiste a um verdadeiro espectáculo, a uma encenação de elevada mestria e de profundo ensaio. De um lado temos um obcecado que cessou funções presidenciais mas que mantém enraizados os "maneirismos" do poder, e genialmente munido de uma estratégia de retomar (oficialmente) o seu cargo perdido pela lei de limitação de mandatos, toma de assalto a oposição. Logo a abrir dizimou o flanco direito com carícias e promessas de amor; ao flanco independente apontou uma estratégia mais hard core a fazer lembrar, não a classe de Sun Tzu na Arte da Guerra, mas antes a falta de escrúpulo de um Berlusconi, ensinado nos sinuosos "corredores" da Cosa Nostra siciliana.
De outro lado temos a figura de um impávido e sereno presidente legitimamente eleito que vê atropelado o seu poder e influência de decisão, sendo reduzido a um mero porteiro, um meio para atingir um fim - disponibilizar caminho para um mandato-campanha. Tudo isto garantido pela entrega de poderes executivos em quem, supostamente, deveria fiscalizar os mesmos. E sejamos francos, melhor fiscal do que aquele não há. Até a sua sombra sofre fiscalização.
Da tragédia:
É profundamente trágico para a democracia em Cabeceiras de Basto episódios que institucionalmente patrocinam a promiscuidade e que instauram aquilo que o filósofo Giorgio Agamben designa como estado de excepção - " um patamar de indeterminação entre democracia e absolutismo."
Ler o mais recente comunicado oficial da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto sobre a reunião da Assembleia Municipal no passado dia 8 de Novembro é mais um exemplo claro dessa indistinção. As palavras (legitimamente se caso o fosse) produzidas por uma linguagem partidária transferem-se para a legitimação de comunicado de Câmara Municipal sob a formalização de informação oficial. A Presidência não trabalha para um partido e não é a esse que presta contas quando se dirige aos cabeceirenses, nessa qualidade; a Presidência informa a todos sob a posição que a todos interessa - isto é, a posição de informar dos factos ocorridos e não a interpretação dos mesmos sob a leitura de uma bancada parlamentar em especifico.
Ler um comunicado que de sete parágrafos descritivos da ordem do dia, apresenta quatro sobre uma tomada de posição da bancada socialista, sem posteriormente dedicar nenhum à resposta da outra parte é demarcado caciquismo. Pior, é caciquismo legitimado com a roupagem de um órgão autárquico.
É ainda trágico que tudo isto venha das mesmas bocas que usam e abusam dos ideias de Abril em inflamados e emocionais discuros, como "pau para toda a colher", quando mais uma vez demonstram que, como já o disse, o cravo não serve para mais se não para o tirar da arma, pronta a disparar.
Nas palavras do escritor austríaco Karl Kraus "o segredo do demagogo é fazer-se passar por tão estúpido quanto a sua plateia, para que esta imagine ser tão esperta quanto ele."
Este mandato dá provas do seu futuro: a demagogia pura em manobras de diversão que tal como ilusionista, diverte para iludir.

