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| Pieter Brueghel the Elder, “Big Fish Eat Little Fish” (1557) |
Há um ditado chinês que diz assim :“Não importa o tamanho da
montanha, ela não pode tapar o sol.”
De
facto, não importa o tamanho da montanha, seja ela qual for, que o sol quando
nasce, nascerá sempre livre, desprovido de qualquer tentativa de hercúlea
presunção para impedir que esse se veja. O sol, independentemente das montanhas que se atravessem na sua irradiação, quando nasce, nasce para
todos.
A metafórica nota introdutória é aqui
usada para ilustrar em jeito de comparação certas montanhas que de quando em
vez teimam em armar-se de um poder (limitado porque delegado) para o extrapolar
em actos tão rasteiros como o chão, a roçar o cúmulo do absurdo. Falo de certas
montanhas que se aproveitam dos seus alicerces enraizados profundamente num habitus de quero, posso e mando, para
encenar episódios dignos de um Oscar de latão, se esse existisse,
premiando a falsidade bacoca.
Anteontem, assisti, na qualidade de
cidadão do concelho de Cabeceiras de Basto, pela primeira vez a uma Assembleia
Municipal no direito que o disposto no ponto primeiro do artigo 38º do
Regimento da Assembleia Municipal do Município de Cabeceiras de Basto
me concede a mim e a qualquer outro cidadão que queira assistir a esta sessão
de carácter público.
Diz o ditado que tanta vez vai o cântaro à
fonte que acaba por lá ficar, ora que na presente situação não precisou de ir o
cântaro à fonte muitas vezes ( bastou-me ir uma vez à Assembleia Municipal) nem
tão pouco acabou por lá ficar, já que fui, perto da meia-noite, de forma
prepotente, arrogante e desprovida de sentido racionalmente entendido,
convidado a sair pelo presidente da Assembleia Municipal. Sim, não fiquem, para
utilizar a expressão do senhor deputado municipal Domingos Machado,
estupefactos. A verdade é esta e só esta, fui convidado a sair ( para não dizer
"posto na rua") por alegadamente, e passo a citar as palavras
do presidente da Assembleia Municipal, " ter feito expressões faciais e
gestos com os olhos" que não seriam do seu agrado, já que mais nenhuma
vivalma demonstrou o seu desagrado ou incómodo. Digo que a verdade é esta e só
esta, porque qualquer pessoa que ali naquela sala presenciou este insólito
acontecimento não poderá se não confirmar que não emiti qualquer som, nem
sequer o do estalar dos joelhos que há duas horas aguentavam o corpo que
estando ali a assistir nem sequer uma cadeira tinha para tal efeito ( e a sala
nem cheia estava), ou gesto manual que pudesse ser entendido como provocatório,
já que mantinha as mãos convenientemente dentro dos bolsos que a sala não é
propriamente de temperatura confortável.
Façamos a leitura à luz da lei: o ponto
segundo do mesmo artigo 38º já citado, diz-nos que: A nenhum cidadão é permitido
interromper ou perturbar a ordem dos trabalhos, sob pena de aplicação das
respectivas sanções legais. Em
primeiro lugar como já referi, duvido que os meus gestos com os olhos ( que exorto
o presidente da AM a descrever o que entende por tais gestos) tenham
interferido com a ordem dos trabalhos uma vez que é fisicamente impossível
interromper o som das palavras através do movimento ocular. Segundo, mesmo que
fosse possível, fico desde já sr.presidente da AM muito lisonjeado pelas
qualidades que me atribui ao olhar, que poderíamos chamar de olhar
matador. Terceiro, analisando
a actuação do sr.presidente da AM, segundo a alínea d) do artigo 15º do
Regimento da AM, que nos diz que é competência do Presidente da Assembleia manter a disciplina das reuniões, vemos que a descabida demonstração
de força ao convidar-me a sair encontra-se nesta alínea, porém, não existiu na
realidade qualquer necessidade de repor a disciplina uma vez que ela nunca esteve
em causa na sessão, a não ser do resultado deste mesmo espectáculo
engenhosamente encenado pelo sr.presidente da AM que de longa experiência se
tornou mestre na arte. De resto, espectáculo que já havia sido
encetado resultando em mais de duas horas de sessão sem sequer
se ter entrado na ordem do dia.
Por último, levo da minha primeira
experiência neste tipo de participação cívica consagrada por direito na
lei, uma triste e deplorável actuação por quem, por direito e dever, tem a
missão de levar a bom porto o melhor seguimento possível das sessões de
Assembleia, zelando, através da isenção, por diálogo e prática responsável da
actividade politica. Ao invés, como já referi num
artigo neste blog publicado, a prática corrente da diversão para
iludir e amedrontar reinou novamente nos corredores do poder
autárquico.
Na verdade não perturbei ou interrompi a
sessão no seu todo, mas apenas no entendimento de um sujeito em particular que se sentiu incomodado
pelo olhar frontal. Bem sei que o seu hábito é olhar e ver rostos cabisbaixos
de submissão, mas aqui não os encontrará, e não os encontrando revela a sua
verdadeira face, a sua verdadeira persona,
revela o rosto da ira, o rosto do caciquismo, como enorme peixe ávido de gula
pelos mais pequenos.
Por mais montanhas que se ergam da
pomposidade do cadeirão vermelho o sol não será vedado, nem anteontem nem
nunca.
